
Eu sentí como se alguém tivesse chutado as minhas pernas de baixo de mim. As semanas de estresse, de preocupação... de alguma forma, no meio de toda a minha obcessão com o tempo, o tempo tinha desaparecido. O meu espaço pra resolver tudo, pra fazer planos, havia desaparecido. Eu estava sem tempo.
E eu não estava preparada.
Eu não sabia como fazer isso. Como dizer adeus à Charlie e à Renée... pra Jacob... a ser humana.
Eu sabia exatamente o que eu queria, mas de repente eu estava morrendo de medo de pegar.
Em teoria, eu estava ansiosa, e até apressada pra trocar a mortalidade pela imortalidade. Afinal, ela era a chave pra ficar com Alfonso pra sempre. E aí havia o fato de que eu estava sendo caçada por inimigos conhecidos e desconhecidos. Eu preferiria não ficar sentada, desamparada e deliciosa, esperando que eles viessem me encontrar.
Em teoria, isso tudo fazia sentido.
Na prática... ser humana era tudo o que eu conhecia. O futuro além disso era um grande abismo escuro que eu não podia conhecer até me jogar nele.
O simples conhecimento, a data de hoje - que era tão óbvia que eu devia estar repreendendo-a subconscientemente - fez com que o prazo final pelo qual eu estive esperando tão impacientemente, parecesse um encontro com um esquadrão de tiro.
De uma maneira vaga, eu estava consciente de Alfonso segurando a porta aberta do carro pra mim, de Maite tagarelando no banco de trás, da chuva batendo no pára-brisa. Alfonso pareceu reparar que eu só estava lá em corpo; ele não tentou me tirar da minha abstração. Ou talvez ele tentou, e eu não reparei.
Nós acabamos em minha casa, onde Alfonso me levou até o sofá e me puxou pra baixo com ele. Eu olhei pela janela, para a névoa cinza líquida, e tentei descobrir pra onde a minha resolução havia ido.
Porque eu estava entrando em pânico agora? Eu sabia que o prazo estava acabando. Porque devia me assustar que ele já estivesse aqui?
Eu não sei por quanto tempo ele me deixou olhar para a janela em silêncio. Mas a chuva já estava desaparecendo na escuridão quando foi demais pra ele.
Ele colocou suas mãos frias em ambos os lados do meu rosto e fixou seus olhos dourados em mim.
- Será que você poderia por favor me dizer o que você está pensando? Antes que eu fique louco?
O que eu podia dizer pra ele? Que eu era covarde? Eu procurei pelas palavras.
- Seus lábios estão brancos. Fale, Any.
Eu exalei em uma grande rajada. Por quanto tempo eu estive prendendo a respiração?
- A data me pegou fora de guarda - eu sussurrei. - Isso é tudo.
Ele esperou, seu rosto cheio de preocupação e ceticismo.
Eu tentei explicar. - Eu não tenho certeza... do que dizer à Charlie... o que dizer... como dizer... - A minha voz escapou.
- Isso não é por causa da festa?
Eu fiz uma careta.
- Não. Mas obrigada por me lembrar.
A chuva estava mais alta enquanto ele leu o meu rosto.
- Você não está pronta ele sussurrou.
- Eu estou - eu mentí imediatamente, uma reação de reflexo. Eu pude notar que ele viu isso, então eu respirei fundo, e contei a verdade. - Eu tenho que estar.
- Você não tem que estar nada.
Eu podia sentir o pânico surgindo em meus olhos enquanto eu falava as razões.
- Victoria, Jane, Caius, quem quer que fosse que estava no meu quarto...!
- Muito mais razões pra esperar.
- Isso não faz sentido, Alfonso!
Ele pressionou as mãos com mais força no meu rosto e falou deliberadamente devagar.
- Any. Nenhum de nós teve a escolha. Você viu o que isso fez... com Rosalie, especialmente. Nós todos lutamos, tentando reconciliar a nós mesmos por uma coisa sobre a qual nunca tivemos controle. Não será assim pra você. Você vai ter uma escolha.
- Eu já fiz a minha escolha.
- Você não vai passar por isso porque tem um espada erguida sobre a sua cabeça. Nós vamos tomar conta dos problemas, e eu vou tomar conta de você - ele prometeu. - Quando não estivérmos passando por isso, não houver nada forçando a sua decisão, ai você pode decidir se unir à mim, se você ainda quiser. Mas não porque você está com medo. Você não será forçada a isso.
- Carlisle prometeu - eu murmurei, contrariando só pelo hábito. - Depois da formatura.
- Não até que você esteja pronta - ele disse com uma voz segura. - E definitivamente não enquanto você se sentir ameaçada.
Eu não respondí. Eu não conseguia encontrar nada pra discutir; no momento eu não parecia encontrar o meu comprometimento.
- Ai - ele beijou a minha testa. - Nada com o que se preocupar.
Eu rí um riso estremecido.
- Nada além da distruição iminente.
- Confie em mim.
- Eu confio.
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